O SISTEMA ENDOCANABINOIDE NA ONCOLOGIA VETERINÁRIA
1 INTRODUÇÃO
As doenças oncológicas são frequentes na clínica de cães e gatos, especialmente em animais idosos, e podem produzir repercussões locais e sistêmicas importantes. Além do crescimento tumoral, os pacientes podem apresentar dor, inflamação, anorexia, perda de peso, náusea, alterações comportamentais e redução da qualidade de vida. A diversidade biológica das neoplasias e a resposta variável aos tratamentos tornam necessária a compreensão dos mecanismos que sustentam a progressão tumoral e os sinais clínicos associados (DELLA ROCCA et al., 2025).
O câncer resulta da interação entre alterações celulares e fatores do microambiente tumoral. Proliferação persistente, resistência à morte celular, formação de vasos, invasão dos tecidos e modulação da resposta imune contribuem, em diferentes proporções, para o comportamento de cada neoplasia. Esses processos também liberam mediadores inflamatórios e metabólicos capazes de afetar o organismo, razão pela qual a avaliação oncológica deve considerar tanto o controle do tumor quanto o bem-estar do paciente (FRAGUAS-SÁNCHEZ; MARTÍN-SABROSO; TORRES-SUÁREZ, 2018).
Nesse contexto, o sistema endocanabinoide (SEC) desperta interesse por atuar como rede reguladora da homeostase. Ele participa da comunicação entre sistema nervoso, tecidos periféricos e imunidade e pode ser recrutado diante de dor, inflamação, estresse e alterações metabólicas. O SEC inclui ligantes endógenos, receptores e enzimas de síntese e degradação, além de alvos que ultrapassam os receptores canabinoides clássicos. Alterações nesses componentes já foram descritas em tecidos neoplásicos e podem acompanhar o comportamento tumoral, embora sua interpretação dependa da espécie e do tipo de câncer (LU; MACKIE, 2016; SILVER, 2019; DI SALVO et al., 2024).
Diante disso, a pergunta norteadora foi: qual é a participação do sistema endocanabinoide no câncer e na regulação dos sinais clínicos apresentados por cães e gatos com doenças oncológicas? O objetivo deste trabalho foi apresentar os principais componentes do sistema endocanabinoide e discutir sua participação nos mecanismos biológicos e clínicos relacionados ao câncer em cães e gatos.
2 METODOLOGIA
Foi realizada uma revisão narrativa da literatura. As buscas foram conduzidas em agosto de 2026 nas bases PubMed, Scopus e SciELO e complementadas pelo Google Scholar. Utilizaram-se, isoladamente e em combinação, os termos: “endocannabinoid system and cancer”, “endocannabinoid system veterinary oncology”, “cannabinoid receptors canine cancer”, “CB1 CB2 canine tumors”, “endocannabinoid system cats” e “sistema endocanabinoide oncologia veterinária”. Também foram examinadas as listas de referências dos trabalhos considerados mais pertinentes.
Foram priorizados artigos originais, revisões e estudos experimentais publicados em português ou inglês entre 2013 e agosto de 2026, com ênfase em cães e gatos. Diante da escassez de estudos veterinários, foram incluídos trabalhos em modelos celulares, roedores e medicina humana quando necessários para explicar mecanismos biológicos, sempre identificando os limites de extrapolação. Foram excluídos textos sem relação direta com os objetivos, duplicatas e materiais sem base científica verificável. A seleção e a síntese foram qualitativas, sem protocolo de revisão sistemática, avaliação formal do risco de viés ou metanálise.
3 COMPONENTES DO SISTEMA ENDOCANABINOIDE
Os endocanabinoides são mediadores lipídicos produzidos pelo próprio organismo, geralmente sob demanda, a partir de componentes das membranas celulares. Os mais estudados são a anandamida, ou N-araquidonoiletanolamida (AEA), e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG). A AEA é formada por vias que incluem a N-acilfosfatidiletanolamina-fosfolipase D (NAPE-PLD) e é degradada principalmente pela hidrolase de amidas de ácidos graxos (FAAH). O 2-AG é sintetizado sobretudo pelas diacilglicerol lipases (DAGL) e inativado principalmente pela monoacilglicerol lipase (MAGL). Assim, FAAH e MAGL controlam a duração e a intensidade da sinalização endocanabinoide (LU; MACKIE, 2016).
Os receptores canabinoides tipo 1 (CB1) e tipo 2 (CB2) pertencem à família dos receptores acoplados à proteína G. O CB1 é abundante no sistema nervoso central, especialmente em terminações pré-sinápticas, mas também ocorre em tecidos periféricos; relaciona-se à modulação da transmissão neural, dor, apetite, náusea, memória e comportamento. O CB2 predomina em células e órgãos do sistema imune, embora também possa ser encontrado em outros tecidos e aumentar em situações patológicas. Sua ativação influencia migração celular, liberação de citocinas e respostas inflamatórias (SILVER, 2019; DI SALVO et al., 2024).
A sinalização, contudo, não se limita a CB1 e CB2. Endocanabinoides e moléculas relacionadas podem interagir com o receptor vaniloide de potencial transitório 1 (TRPV1), envolvido em nocicepção e inflamação, e com receptores ativados por proliferadores de peroxissoma (PPARs), que regulam expressão gênica, metabolismo e diferenciação celular. A existência desses alvos, juntamente com múltiplas enzimas de síntese e degradação, demonstra que o SEC é uma rede integrada, e não apenas um par de receptores (LU; MACKIE, 2016; DI SALVO et al., 2024).
4 FUNÇÕES FISIOLÓGICAS
O SEC contribui para a homeostase ao ajustar a atividade celular conforme a necessidade do tecido. No sistema nervoso, AEA e 2-AG podem atuar como mensageiros retrógrados: são produzidos na célula pós-sináptica e reduzem temporariamente a liberação de neurotransmissores pela terminação pré-sináptica. Esse mecanismo participa do controle da excitabilidade, da percepção dolorosa, do comportamento e da resposta ao estresse. Em vias periféricas e imunes, a modulação de CB2 e de outros alvos pode alterar a produção de mediadores inflamatórios e a atividade de leucócitos (LU; MACKIE, 2016; BROWN et al., 2023).
Na dor, a sinalização endocanabinoide atua em níveis periférico, espinal e supraespinal, embora a maior parte da evidência ainda seja pré-clínica (FINN et al., 2021). O sistema também participa do balanço energético e do apetite e integra circuitos centrais, vagais e gastrointestinais relacionados à náusea e ao vômito (SHARKEY; DARMANI; PARKER, 2014). Sua influência sobre sono, ansiedade, comportamento e resposta ao estresse depende do local, do momento e da intensidade da sinalização (SILVER, 2019; DI SALVO et al., 2024). Essas funções formam a ligação com a oncologia, pois muitos pacientes com câncer apresentam simultaneamente dor, inflamação, inapetência, distúrbios gastrointestinais e alterações comportamentais.
5 SISTEMA ENDOCANABINOIDE E CÂNCER
Em diferentes neoplasias, podem ocorrer mudanças na concentração de endocanabinoides, na expressão de CB1 e CB2 e na atividade de enzimas como FAAH e MAGL. Essas alterações podem representar resposta defensiva do organismo, adaptação do tumor ou ambos. Por isso, a direção do efeito não é uniforme: a mesma via pode limitar ou favorecer a progressão conforme a célula envolvida, a dose, o tempo de ativação e o conjunto de sinais presentes no microambiente (FRAGUAS-SÁNCHEZ; MARTÍN-SABROSO; TORRES-SUÁREZ, 2018; DELLA ROCCA et al., 2025).
5.1 PROLIFERAÇÃO E SOBREVIVÊNCIA CELULAR
A ativação de receptores canabinoides pode modificar vias como MAPK/ERK, PI3K/Akt/mTOR e a produção de AMP cíclico, interferindo no ciclo celular, no metabolismo e na resposta a fatores de crescimento. Em alguns modelos, esse conjunto reduz proliferação e viabilidade; em outros, a ativação insuficiente, prolongada ou situada em células diferentes pode sustentar adaptação e sobrevivência. A interpretação exige, portanto, identificar o receptor, a célula-alvo e o contexto tumoral, em vez de atribuir ao SEC um efeito único (FRAGUAS-SÁNCHEZ; MARTÍN-SABROSO; TORRES-SUÁREZ, 2018).
Na oncologia veterinária, a expressão de CB1 e CB2 foi demonstrada em mastocitomas cutâneos caninos, com maior imunorreatividade em tumores de baixo grau do que nos de alto grau. O achado indica associação com o fenótipo tumoral, mas não comprova causalidade nem resposta ao tratamento (RINALDI et al., 2022). Em cães com linfoma multicêntrico, a AEA e os lipídios relacionados oleoiletanolamida (OEA) e palmitoiletanolamida (PEA) apresentaram concentrações circulantes diferentes das de controles saudáveis, sugerindo alteração sistêmica da sinalização lipídica e possível utilidade como biomarcadores exploratórios (HAY et al., 2022). Em culturas de linfoma não Hodgkin canino, AEA e 2-AG reduziram a viabilidade e modificaram marcadores oxidativos, inflamatórios e mitocondriais; trata-se, porém, de evidência in vitro (OMER et al., 2023).
5.2 APOPTOSE
A apoptose é uma forma regulada de morte celular necessária para eliminar células danificadas. Em modelos tumorais, a sinalização canabinoide pode aumentar ceramidas, estresse do retículo endoplasmático, espécies reativas de oxigênio e alterações mitocondriais, além de ativar caspases. Esses eventos podem convergir para apoptose, mas parte dos efeitos ocorre por alvos não clássicos ou por mecanismos independentes de CB1 e CB2 (FRAGUAS-SÁNCHEZ; MARTÍN-SABROSO; TORRES-SUÁREZ, 2018; DELLA ROCCA et al., 2025).
Em células de glioma canino e humano, o canabidiol induziu apoptose e disfunção mitocondrial em condições experimentais. Esse resultado ajuda a investigar vias relacionadas ao SEC ampliado, mas envolve um fitocanabinoide e não demonstra eficácia clínica em animais com tumor espontâneo (GROSS et al., 2021). Além disso, no estudo com células de linfoma canino, a redução de viabilidade promovida por AEA e 2-AG não foi acompanhada por alteração dos marcadores apoptóticos avaliados (OMER et al., 2023). A comparação reforça que morte celular e apoptose não são sinônimos e que a resposta varia entre tipos tumorais.
5.3 ANGIOGÊNESE, INVASÃO E METÁSTASE
A angiogênese fornece oxigênio e nutrientes ao tumor e favorece sua expansão. Em modelos experimentais, a modulação do SEC pode reduzir mediadores pró-angiogênicos, como o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), e alterar a atividade de células endoteliais. Em uma linhagem de osteossarcoma canino, o agonista sintético WIN-55,212-2 reduziu em aproximadamente 35% a expressão de VEGF-A. O estudo foi realizado em cultura celular e não permite concluir que o mesmo efeito ocorra em tumores espontâneos ou resulte em benefício clínico (FIGUEIREDO et al., 2013).
A invasão e a metástase exigem perda de adesão, remodelamento da matriz extracelular, migração, entrada na circulação e colonização de outros órgãos. Estudos principalmente humanos e murinos indicam que vias canabinoides podem interferir em metaloproteinases, transição epitélio-mesenquimal e motilidade celular, mas os resultados dependem do modelo e do perfil de receptores (FRAGUAS-SÁNCHEZ; MARTÍN-SABROSO; TORRES-SUÁREZ, 2018). Em cães e, sobretudo, em gatos, faltam estudos clínicos que demonstrem redução de invasão ou metástase por manipulação do SEC.
5.4 MICROAMBIENTE TUMORAL E IMUNIDADE
O microambiente tumoral reúne células neoplásicas, fibroblastos, vasos, matriz extracelular e populações imunes. Leucócitos expressam receptores canabinoides, produzem endocanabinoides e possuem FAAH e MAGL, formando uma rede capaz de modificar recrutamento celular e liberação de citocinas. Em células imunes caninas, foram demonstrados CB1 e CB2 em níveis elevados; entretanto, os efeitos sobre citocinas variaram com o veículo, o tempo de exposição e o indivíduo, evidenciando a sensibilidade experimental dessas respostas (BROWN et al., 2023).
A modulação do SEC pode reduzir inflamação persistente e mediadores que favorecem o tumor, mas também pode limitar a vigilância imunológica. Em revisão do microambiente, o chamado SEC imune foi associado tanto à rejeição quanto ao crescimento tumoral (KIENZL; KARGL; SCHICHO, 2020). Em um modelo murino de câncer pulmonar de células não pequenas, com análise complementar de tecido humano, a sinalização de CB2 no hospedeiro restringiu a atividade de linfócitos T CD8+ e células natural killer; a ausência de CB2 reduziu a carga tumoral (SARSEMBAYEVA et al., 2023). Esse exemplo não deve ser extrapolado diretamente para cães e gatos, mas demonstra que a ativação de CB2 não é necessariamente antitumoral.
Portanto, o efeito final varia conforme o tipo de neoplasia, a espécie, as células que expressam os receptores, a concentração dos ligantes e a intensidade e duração da sinalização. O SEC deve ser apresentado como modulador contextual do câncer, e não simplesmente como um sistema antitumoral.
6 IMPORTÂNCIA CLÍNICA NA ONCOLOGIA VETERINÁRIA
A importância clínica do SEC decorre da sobreposição entre suas funções fisiológicas e problemas comuns do paciente oncológico. A dor pode resultar da compressão e invasão de tecidos, de inflamação, de neuropatia ou do tratamento. A sinalização endocanabinoide participa das vias nociceptivas e inflamatórias, mas a tradução dos resultados pré-clínicos em analgesia segura e previsível ainda representa um desafio (FINN et al., 2021). Náusea e vômito podem decorrer da própria doença ou de quimioterápicos, enquanto inapetência e perda de peso costumam ter causas metabólicas, inflamatórias, gastrointestinais e comportamentais combinadas (SHARKEY; DARMANI; PARKER, 2014; JOHANNES; MUSSER, 2019).
Alterações de sono, ansiedade e interação social também interferem no bem-estar de cães e gatos com câncer. Como o SEC integra respostas neurais, imunes e metabólicas, sua compreensão ajuda a formular hipóteses para o manejo simultâneo desses sinais e para a avaliação de qualidade de vida. Contudo, essa relação fisiológica não prova que qualquer substância capaz de interagir com o sistema produzirá benefício clínico; os efeitos dependem da composição, dose, farmacocinética, espécie, comorbidades e tratamentos concomitantes (DI SALVO et al., 2024).
O conhecimento do SEC fundamenta o interesse por novos alvos terapêuticos e por estratégias adjuvantes, sem substituir cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia ou cuidados paliativos indicados. Em ensaio clínico curto com cães portadores de linfoma submetidos ao protocolo CHOP, 25 animais foram incluídos e 19 concluíram o acompanhamento; um óleo rico em CBD/CBDA foi bem tolerado, mas não produziu diferença significativa nos escores de qualidade de vida entre os grupos (LEJEUNE et al., 2025). O estudo contribui para informações iniciais de segurança, não para comprovação de ação antitumoral. Assim, o foco clínico deve permanecer na avaliação individual e em desfechos objetivos.
7 LIMITAÇÕES DAS EVIDÊNCIAS
A principal limitação é a escassez de estudos clínicos em cães e, sobretudo, em gatos com câncer. Grande parte das hipóteses sobre proliferação, apoptose, angiogênese e metástase deriva de linhagens celulares, modelos murinos ou estudos humanos. Mesmo entre estudos veterinários, predominam amostras reduzidas, tumores específicos, exposições curtas e desfechos laboratoriais. Uma revisão sistemática recente sobre CBD em oncologia canina encontrou evidência essencialmente pré-clínica, concentrada em modelos celulares, e ressaltou a necessidade de padronizar concentrações, formulações e métodos antes de avançar para conclusões clínicas (MEDINA; TORRES, 2026).
Resultados in vitro demonstram possibilidade biológica, mas não reproduzem metabolismo, distribuição do fármaco, microambiente tumoral, imunidade, toxicidade e interações medicamentosas do animal. Diferenças entre cães, gatos, roedores e humanos, assim como entre tumores da mesma espécie, impedem extrapolações automáticas. A expressão de CB1, CB2, TRPV1 e PPARs também pode variar com grau, estágio e tratamento, alterando o sentido da resposta (DELLA ROCCA et al., 2025).
São necessários estudos prospectivos, controlados e separados por espécie e tipo tumoral. Devem ser avaliados perfil de receptores, farmacocinética, segurança, interação com antineoplásicos, sinais clínicos, qualidade de vida, resposta tumoral e sobrevida. Até lá, o SEC deve ser considerado campo de investigação, e não evidência de eficácia antineoplásica.
8 CONCLUSÃO
O sistema endocanabinoide participa da homeostase e modula dor, inflamação, imunidade e comportamento celular. Alterações em seus componentes podem associar-se à proliferação, apoptose, angiogênese, invasão e progressão tumoral. Na oncologia veterinária, sua compreensão pode orientar pesquisas e o manejo de sinais clínicos. Contudo, seus efeitos dependem do contexto e não são simplesmente antitumorais. Faltam estudos clínicos de eficácia e segurança, sobretudo em gatos.
Melissa Bolzan Bueno – Médica-Veterinária | CRMV-SP 14.633 S
Fundadora e responsável técnica do Centro Veterinário My Pets, em Catanduva/SP, com atuação nas áreas de Oncologia Veterinária, Homeopatia e Medicina Veterinária Integrativa.
Formação acadêmica
* Graduação em Medicina Veterinária – UNIP (2001).
* Pós-graduação em Homeopatia Veterinária – Instituto François Lamasson (2012–2015).
* Aperfeiçoamento em Oncologia de Cães e Gatos – UNESP/Jaboticabal (2017–2019).
* Pós-graduação em Endocanabinologia Veterinária – Faculdade Anhanguera (concluída em 2026).
Formações complementares
* Terapia Neural – IDIS.
* Ozonioterapia – IBRA.
* Fitoterapia – Farmácia da Natureza e cursos com Talita Nader.
* Biorressonância – IBRA.
* Terapias Quânticas – IBRA.
* Reiki Nível 3 – SENAC.
* Comunicação Intuitiva com os Animais – Fernanda Pimenta.
* Constelação Familiar Multiespécie.
* Medicina Germânica – Instituto Marcos Fernandes.
REFERÊNCIAS
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