Sistema Endocanabinoide: Muito além do óleo de Cannabis

Quando se fala em Sistema Endocanabinoide (SEC), a maioria das pessoas pensa
imediatamente no óleo de Cannabis. Esse é um dos maiores mitos da Endocanabinologia.
Embora os fitocanabinoides presentes na Cannabis sativa, como o canabidiol (CBD) e o
Δ9-tetraidrocanabinol (THC), sejam importantes moduladores do SEC, eles representam
apenas uma das diversas ferramentas capazes de influenciar esse sistema (Di Marzo, 2008;
Fowler, 2021).

O Sistema Endocanabinoide é uma complexa rede de sinalização biológica responsável por
manter a homeostase do organismo. Atua na regulação da dor, inflamação, imunidade,
metabolismo, sono, apetite, humor, memória e resposta ao estresse, por meio dos
receptores CB1 e CB2, além de outros alvos moleculares, como TRPV1, PPAR-γ, GPR55 e
das enzimas FAAH e MAGL (Fowler, 2021).

O próprio organismo produz canabinoides endógenos, principalmente a anandamida (AEA)
e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG). Diversas estratégias terapêuticas podem estimular sua
produção, reduzir sua degradação ou modular seus receptores, favorecendo o equilíbrio
fisiológico sem depender exclusivamente da Cannabis medicinal (McPartland, Guy & Di
Marzo, 2014),

É justamente por isso que hoje sabemos que existem dezenas de ferramentas capazes de
influenciar o Sistema Endocanabinoide. A atividade física, por exemplo, aumenta a concentração plasmática de anandamida, fenômeno relacionado ao conhecido “runner’s high”, contribuindo para a analgesia, bem-estar e melhora do humor (Sparling et al., 2003).

A alimentação também exerce papel fundamental. A ingestão adequada de ácidos graxos
essenciais, especialmente os ômega-3, é indispensável para a síntese dos
endocanabinoides e para o funcionamento adequado do sistema (DiPatrizio, 2016).

Na fitoterapia, diversos compostos vegetais, ainda que não derivados da Cannabis Sativa,
podem interagir com vias relacionadas ao Sistema Endocanabinoide, ampliando as
possibilidades terapêuticas (Russo, 2016).

Entre as terapias integrativas, a acupuntura é uma das mais bem estudadas. Evidências
demonstram que sua analgesia envolve a ativação do Sistema Endocanabinoide, com
aumento da produção de anandamida e participação dos receptores CB2 em diferentes
modelos experimentais (Hu et al., 2018; Scheff et al., 2021).

Outras abordagens, como laserterapia, ozonioterapia, quiropraxia, terapias manuais e
manejo do estresse, podem contribuir para a restauração da homeostase e da resposta
inflamatória do organismo.

Embora existam hipóteses e evidências indiretas sugerindo
interação com o Sistema Endocanabinoide, ainda são necessários estudos adicionais para
confirmar mecanismos específicos de modulação (McPartland, Guy & Di Marzo, 2014).

Da mesma forma, práticas como Reiki, meditação e outras terapias complementares podem
favorecer o relaxamento e a qualidade de vida. Entretanto, até o momento, não existem
evidências científicas robustas demonstrando uma modulação direta do Sistema
Endocanabinoide por essas técnicas, motivo pelo qual devem ser compreendidas como
estratégias complementares dentro da medicina integrativa.

Portanto, reduzir a Endocanabinologia apenas ao óleo de Cannabis significa ignorar a
complexidade desse sistema fisiológico. A Cannabis Medicinal é uma ferramenta
extraordinária, mas está inserida em um universo muito maior de intervenções capazes de
favorecer o equilíbrio do organismo.
A verdadeira Endocanabinologia consiste em compreender como diferentes estímulos nutricionais, físicos, comportamentais e terapêuticos, podem atuar de forma integrada
sobre o Sistema Endocanabinoide, permitindo abordagens cada vez mais individualizadas,
seguras e fundamentadas na ciência.

Dra Caroline Souza de Oliveira
CRMV: 55708 SP
Conselheira fiscal da AMEC-VET
Pós graduada em Endocanabinologia Veterinária
Pós-graduada graduada em clínica médica de pequenos animais
Pós-graduada graduada em fitoterapia aplicada aos animais
Pós-graduada Veterinária e a nutrição de pets.

REFERÊNCIAS
DI MARZO, V. Targeting the endocannabinoid system: to enhance or reduce? Nature Reviews Drug Discovery, 2008.

DIPATRIZIO, N. V. Endocannabinoids in the gut. Cannabis and Cannabinoid Research, 2016.

FOWLER, C. J. The endocannabinoid system – current implications for drug development. Journal of Internal Medicine, 2021.

HU, B.; BAI, F.; XIONG, L.; WANG, Q. The endocannabinoid system, a novel and key participant in acupuncture’s multiple beneficial effects. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2018.

MCPARTLAND, J. M.; GUY, G. W.; DI MARZO, V. Care and feeding of the endocannabinoid system. PLoS ONE, 2014.

RUSSO, E. B. Beyond cannabis: plants and the endocannabinoid system. Trends in Pharmacological Sciences, 2016.

SCHEFF, N. N. et al. The endocannabinoid system contributes to electroacupuncture analgesia. Frontiers in Molecular Neuroscience, 2021.

SPARLING, P. B. et al. Exercise activates the endocannabinoid system. NeuroReport, 2003.